Ensino Secundário

Aprendizagens Essenciais de Filosofia

11.º Ano

Última atualização: 30 de junho de 2026

Resumo

A disciplina de Filosofia do 11.º ano, dando continuidade ao 10.º ano, aprofunda o trabalho filosófico nas áreas do conhecimento, da ciência, da arte e da religião. No Módulo IV — O Conhecimento e a Racionalidade Científica e Tecnológica — os alunos analisam o problema da possibilidade do conhecimento com o racionalismo de Descartes (dúvida metódica, cogito, clareza e distinção das ideias) e o empirismo de Hume (impressões, ideias, relação causa-efeito, problema da indução). Estudam ainda o estatuto do conhecimento científico com o falsificacionismo de Popper (falsificabilidade, conjeturas e refutações) e a teoria das revoluções científicas de Kuhn (ciência normal, paradigma, incomensurabilidade). No Módulo V — A Dimensão Estética — abordam o problema da definição de arte com as teorias essencialistas (arte como representação, expressão e forma) e as teorias não essencialistas (teoria institucional e teoria histórica). No Módulo VI — A Dimensão Religiosa — analisam o problema da existência de Deus com os argumentos cosmológico e teleológico de Tomás de Aquino, o argumento ontológico de Anselmo, o fideísmo de Pascal e o argumento do mal de Leibniz. O ano culmina na elaboração de um ensaio filosófico sobre um tema contemporâneo da cultura científico-tecnológica, da arte ou da religião (inteligência artificial, genoma, experimentação animal, OGM, arte e política, etc.), mobilizando também os conhecimentos do 10.º ano (Kant, Mill, Rawls). As competências de problematização, conceptualização e argumentação são aprofundadas ao longo de todo o ano.

Conteúdos e temas

Módulo IV — O Conhecimento e a Racionalidade Científica e Tecnológica

  • Descrição e interpretação da atividade cognoscitiva [Filosofia do Conhecimento]
    • O problema da possibilidade do conhecimento: o desafio cético
    • Descartes — a resposta racionalista: a dúvida metódica; o cogito (conhecimento a priori); a clareza e a distinção das ideias como critério de verdade; o papel da existência de Deus na garantia do conhecimento
    • Hume — a resposta empirista: impressões e ideias (conhecimento a posteriori); questões de facto e relações de ideias; a relação causa-efeito; conjunção constante, conexão necessária e hábito; o problema da indução
    • Discussão crítica do racionalismo e do empirismo como respostas ao problema da possibilidade e da origem do conhecimento
  • O estatuto do conhecimento científico [Filosofia da Ciência]
    • O problema da demarcação do conhecimento científico: distinção entre teorias científicas e não científicas
    • O problema da verificação das hipóteses científicas: papel da observação e da experimentação; verificação e verificabilidade; confirmação de teorias
    • O papel da indução no método científico
    • Popper e o falsificacionismo: a posição perante o problema da indução; falsificação e falsificabilidade; método de conjeturas e refutações; a corroboração de teorias
    • Discussão crítica da teoria de Popper
    • A racionalidade científica e a objetividade: perspetiva de Popper (eliminação do erro, seleção das teorias mais aptas, progresso do conhecimento e aproximação à verdade)
    • Kuhn e a revolução científica: ciência normal e ciência extraordinária; revolução científica; a tese da incomensurabilidade dos paradigmas; a escolha de teorias
    • Discussão crítica das posições de Popper e Kuhn sobre a evolução e a objetividade do conhecimento científico

Módulo V — A Dimensão Estética — Análise e Compreensão da Experiência Estética [Filosofia da Arte]

  • A criação artística e a obra de arte
    • O problema da definição de arte e a sua importância filosófica
    • Teorias essencialistas: a arte como representação (mimese); a arte como expressão; a arte como forma (formalismo)
    • Teorias não essencialistas: a teoria institucional da arte; a teoria histórica da arte
    • Discussão crítica de cada uma das propostas de definição de arte: pontos fortes e fracos

Módulo VI — A Dimensão Religiosa — Análise e Compreensão da Experiência Religiosa [Filosofia da Religião]

  • Religião, razão e fé
    • O problema da existência de Deus e a sua importância filosófica
    • O conceito teísta de Deus
    • Argumento cosmológico de Tomás de Aquino: a existência de Deus a partir da causalidade do mundo
    • Argumento teleológico de Tomás de Aquino: a existência de Deus a partir da ordem e finalidade do mundo
    • Argumento ontológico de Anselmo: a existência de Deus a partir do conceito de ser perfeito
    • O fideísmo de Pascal: a aposta de Pascal; fé vs. razão
    • O argumento do mal de Leibniz: o problema do mal como objeção à existência de um Deus omnipotente e bom; a teodiceia de Leibniz
    • Discussão crítica dos argumentos sobre a existência de Deus

Temas/Problemas da Cultura Científico-Tecnológica, de Arte e de Religião (ensaio filosófico)

  • Desenvolvimento de um tema à escolha (ensaio filosófico)
    • Temas possíveis: a redefinição do humano pela tecnociência; problemas éticos na criação da inteligência artificial; impacto da sociedade da informação no quotidiano; impacto da tecnociência no mundo do trabalho; ética na manipulação do genoma humano; questões éticas da reprodução assistida; cuidados de saúde e prolongamento da vida; legitimidade da experimentação animal; ciência e cuidado pelo ambiente; organismos geneticamente modificados (OGM) e impacto ambiental e na saúde; arte, sociedade e política; ateísmo e argumentos contemporâneos sobre a existência de Deus; ou outro tema inserido nas áreas filosóficas das AE do 11.º ano
    • Competências a desenvolver: delimitação rigorosa do problema filosófico; formulação e fundamentação do problema; enunciação de teses e teorias; mobilização de conceitos filosóficos (incluindo os de Kant, Mill e Rawls do 10.º ano) em argumentos e contra-argumentos; confrontação crítica; determinação das implicações práticas; elaboração de ensaio filosófico

Competências transversais

Problematização: identificar, formular e relacionar com clareza e rigor problemas filosóficos; justificar a sua pertinência nas áreas do conhecimento, da ciência, da arte e da religião; Conceptualização: identificar, clarificar e relacionar conceitos filosóficos de gnosiologia, filosofia da ciência, filosofia da arte e filosofia da religião; mobilizá-los na formulação de problemas, teses e argumentos; Argumentação: aplicar instrumentos de lógica formal e informal (aprendidos no 10.º ano) à análise das teorias filosóficas do 11.º ano; avaliar criticamente pontos fortes e fracos; comparar teses de Descartes/Hume, Popper/Kuhn, teorias da arte e argumentos sobre Deus; assumir posições pessoais fundamentadas; Pensamento crítico e científico: analisar criticamente os fundamentos epistemológicos das ciências estudadas (Biologia, Física, História, Economia, Geografia) à luz das teorias de Popper e Kuhn; distinguir ciência de pseudociência; Sensibilidade estética: analisar obras de arte como exemplos e contra-exemplos das teorias estudadas; desenvolver pensamento estético sobre diferentes formas de manifestação cultural; Cidadania ativa: mobilizar conhecimento filosófico para refletir sobre problemas tecnocientíficos, éticos e políticos contemporâneos (IA, genoma, OGM, arte e política, etc.); articular com os conhecimentos éticos e políticos do 10.º ano (Kant, Mill, Rawls); Comunicação filosófica: elaborar ensaios filosóficos; mapas de argumentos; quadros síntese; apresentações orais com critérios de autoavaliação e heteroavaliação; Articulação interdisciplinar: Biologia e Geologia, Física e Química, História A, Economia, Geografia, Cidadania e Desenvolvimento

Fonte oficial: Direção-Geral da Educação — Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º Ano (Ensino Secundário), Agosto 2018 — consultar o documento original (PDF)

Perguntas frequentes

O que se estuda em Filosofia no 11.º ano?
Filosofia do 11.º ano, dando continuidade ao 10.º ano (onde se estudaram lógica formal e informal, livre-arbítrio, ética de Kant e Mill, e teoria da justiça de Rawls), aprofunda a atividade filosófica em três novas áreas. O Módulo IV — Filosofia do Conhecimento e da Ciência — analisa o problema da possibilidade do conhecimento (racionalismo de Descartes vs. empirismo de Hume) e o estatuto do conhecimento científico (falsificacionismo de Popper e teoria das revoluções científicas de Kuhn). O Módulo V — Filosofia da Arte — aborda o problema da definição de arte com as teorias essencialistas (representação, expressão, forma) e não essencialistas (teoria institucional e teoria histórica). O Módulo VI — Filosofia da Religião — analisa o problema da existência de Deus (argumentos cosmológico, teleológico e ontológico, fideísmo de Pascal e argumento do mal de Leibniz). O ano culmina num ensaio filosófico sobre um tema contemporâneo da cultura científico-tecnológica, da arte ou da religião.
Qual a diferença entre o racionalismo de Descartes e o empirismo de Hume estudados em Filosofia no 11.º ano?
O racionalismo de Descartes defende que o conhecimento genuíno tem origem na razão (a priori), independentemente da experiência sensorial. Através da dúvida metódica — duvidar sistematicamente de tudo o que pode ser posto em causa — Descartes encontra uma certeza inabalável no cogito ('penso, logo existo') e estabelece a clareza e a distinção das ideias como critério de verdade, com a existência de Deus a garantir a fiabilidade das ideias claras e distintas. O empirismo de Hume defende que todo o conhecimento provém da experiência (a posteriori): o que conhecemos são impressões (perceções diretas) e ideias (cópias mais fracas das impressões). Hume distingue questões de facto (conhecimento empírico, contingente) de relações de ideias (verdades analíticas, necessárias) e questiona a relação causa-efeito, mostrando que a ideia de conexão necessária resulta do hábito e não de uma perceção direta — o que conduz ao problema da indução.
O que é o falsificacionismo de Popper e como difere da perspetiva de Kuhn estudadas no 11.º ano?
Popper abordou o problema da demarcação (o que distingue ciência de não-ciência) e o problema da justificação da indução (não podemos provar uma lei universal a partir de casos finitos). A sua resposta foi o falsificacionismo: uma teoria é científica se for falsificável, ou seja, se puder ser refutada por observações. A ciência avança pelo método de conjeturas e refutações — propõem-se teorias ousadas, testam-se e eliminam-se as que são refutadas; as que resistem ficam corroboradas (mas nunca provadas). Kuhn propôs uma visão histórica da ciência: na ciência normal, os cientistas trabalham dentro de um paradigma dominante; quando surgem anomalias que o paradigma não consegue resolver, ocorre uma revolução científica e o paradigma é substituído. A tese da incomensurabilidade afirma que paradigmas diferentes não são completamente comparáveis — o que gera questões sobre a objetividade e o progresso científico que Popper contesta.
Quais são as principais teorias sobre a definição de arte estudadas em Filosofia no 11.º ano?
O problema da definição de arte questiona se é possível identificar uma propriedade essencial comum a todas as obras de arte. As teorias essencialistas respondem que sim: a teoria da arte como representação (ou mimese) defende que a arte imita ou representa a realidade; a teoria da arte como expressão defende que a arte é a expressão de emoções do artista; a teoria da arte como forma (formalismo) defende que o que distingue a arte é a forma significante — a organização formal dos elementos, independentemente do conteúdo. As teorias não essencialistas negam que haja uma propriedade essencial: a teoria institucional defende que uma obra de arte é o que o 'mundo da arte' (instituições, críticos, museus) classifica como tal; a teoria histórica defende que algo é arte se se relacionar historicamente com obras já reconhecidas como arte.
Quais são os principais argumentos sobre a existência de Deus estudados em Filosofia no 11.º ano?
Estudam-se cinco posições. Os argumentos cosmológico e teleológico de Tomás de Aquino são a posteriori (partem da experiência): o cosmológico argumenta que tudo tem uma causa e que deve existir uma causa primeira não causada (Deus); o teleológico argumenta que a ordem e a finalidade do mundo pressupõem um criador inteligente. O argumento ontológico de Anselmo é a priori (parte do conceito de Deus): Deus é o ser do qual nada maior pode ser concebido, e um ser que existe é maior do que um que não existe, logo Deus existe necessariamente. O fideísmo de Pascal rejeita a via racional e propõe a aposta: dado que não podemos provar nem refutar a existência de Deus pela razão, é racionalmente vantajoso apostar na sua existência. O argumento do mal de Leibniz confronta o problema: se Deus é omnipotente, omnisciente e bom, como existe o mal? Leibniz responde com a teodiceia — este é o melhor dos mundos possíveis — mas o argumento do mal permanece uma objeção central ao teísmo.
O que é o ensaio filosófico no 11.º ano de Filosofia e que temas pode abordar?
O ensaio filosófico do 11.º ano parte dos temas estudados nos módulos IV, V e VI e aplica-os a problemas contemporâneos. Os alunos escolhem um tema (ou o professor propõe), delimitam rigorosamente o problema filosófico, formulam e fundamentam as teses, constroem argumentos e contra-argumentos mobilizando os conceitos filosóficos do 11.º ano e, onde relevante, os do 10.º ano (Kant, Mill, Rawls). Os temas possíveis incluem: a redefinição do humano pela tecnociência; problemas éticos na inteligência artificial; impacto da sociedade da informação; ética na manipulação do genoma; reprodução assistida; experimentação animal; OGM e ambiente; arte e política; e argumentos contemporâneos sobre a existência de Deus. O ensaio é a culminação das competências de problematização, conceptualização e argumentação desenvolvidas ao longo dos dois anos da disciplina.
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